No dia 27 desse mês foi um dia de profundidade, reflexão dentro de mim. Pela manhã encontrei uma mulher em um ônibus que começou a conversar comigo sem me conhecer, gostei do rumo da conversa, mas a medida que fomos conversando me senti pequena, culpada, procrastinada, inerte. Não me senti assim pelo fato do assunto da conversa, nem pela pessoa que aquela mulher era, na verdade, ela era muito esforçada, determinada e me pareceu incansável, características que atribuo a mim, mas que naquele momento se foram. Me senti pequena pela reflexão que fiz em relação a minha pessoa.
Fico pensando às vezes, se tudo tivesse sido diferente, se eu tivesse nascido e crescido em outro lugar, se tivesse feito mais, feito outras coisas diferentes, se tivesse arriscado quando quis, mas temi, se tivesse estudado em outro lugar, conhecido outras pessoas, se tivesse tido uma oportunidade a mais, uma chance a mais. Será que eu seria uma outra pessoa? Teria outros sonhos? Outras motivações? Eu não sei.
Voltando para a mulher no ônibus penso nas outras pessoas, não por causa da pessoa que ela é, porém pela conversa que tivemos. Penso nos milhares de pessoas que estão por aí trabalhando dia e noite. Será que são felizes? Há tantos no mundo que trabalham duro e se alimentam de sonhos sem saber se devem ter esperança de um dia poder realizá-los, meus olhos não veem isso como normalidade, para mim, é um sequestro de emoções e sonhos. A mulher no ônibus me falou dos filhos dela, especialmente de sua filha mais nova, dos desejos de realização que ela tem para o futuro da filha. Isso é muito bom! Aquela mulher estava rompendo barreiras, uma das poucas pessoas que encontro neste lugar e que não se contentaria com isto aqui, se é que se pode esperar algo daqui.
Bom, essa conversa com a mulher desconhecida foi quando eu seguia para meu destino, na volta encontrei outra pessoa que não falou comigo, mas isso não foi necessário, bastou que eu a olhasse e fizesse uma dolorida reflexão. Essa pessoa era uma criança, não costumo reparar muito em crianças, não sei porque, porém minha atenção se voltou inteiramente para ela. A criança estava meio suja e muito sonolenta, aquela tão pequenina pessoa, para mim, não deveria estar alí naquele ônibus, naquela hora. Me perguntei qual destino ela teria, como ela seria, se teria as mesmas oportunidades que aquela mãe no ônibus sonhava para sua filha, as quais ela poderia dar, olhando para a criança respondi para mim que não, aquela criança não teria as mesmas oportunidades, para isso ela deveria aniquilar todas as dificuldades em seu caminho, ela deveria ser incentivada muito antes para que depois não sofresse pelo tempo que não volta.
Nesse momento senti um vazio tão grande que não coube dentro de mim, uma vontade louca de dizer que tudo estava errado e a verdade é que tudo está muito errado e a maioria, infelizmente, não consegue enxergar.
Não preciso de várias coisas ao mesmo tempo, só preciso de uma coisa por muito tempo.