quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Olá, lembra de mim? Sumi, não foi? Venha comigo, vou lhe contar uma coisa...

Aconteceu ontem, dia 23/02/2016. Eu estava no ônibus, como de costume. De repente, um homem começou a falar, não sei quem ele era, não sei seu nome, nem como foi parar ali, mas sei de seu sofrimento. Era um homem, três tumores e uma diabete cefálica. Era tudo em tão pouco.

Ele pedia ajuda, pedia que alguém que pudesse o ajudasse alí naquele ônibus, com qualquer quantia em dinheiro, fiquei pasma ao vê-lo andar pelo ônibus, calma! Não, andar não, mas se arrastar, era isso que ele fazia, se arrastava, eu conseguia sentir o cheiro do seu mal estar, estava tão magro que eu podia ver o relevo proeminente de seus vasos sanguíneos. Me perguntei, o que o movia? Qual sua motivação?

Observei que ao pedir ajuda, não pedia por ele, parecia que a luta havia terminado, que não fazia mais sentido continuar por ele, mas ele estava lá, continuou por outros, continuou por amor, por seus filhos. Ele pedia ajuda, pois não tinha água em casa e sua filha lhe pedia devido à sede. O que me veio na mente nesse exato momento? Ah, sim, um pai desesperado, por ver a filha pedir água e não poder saciar sua sede.

O que eu fiz ao vê-lo, ao ouvi-lo? Eu simplesmente chorei, não por pena. Não tenho pena dele, ele é capaz de tudo, somos todos capazes de tudo, ele era forte, a pesar de tão debilitado, ele era. O que senti foi raiva, por tudo que foi tirado injustamente daquele homem. Senti raiva por ele ser um cidadão como qualquer outro, ter trabalhado, e pago impostos sua vida inteira. Esse é o problema! Uma vida dedicada ao mundo, mas esse mesmo mundo não deu a ele nem o mínimo do que lhe foi tirado. Ele tinha direito, como qualquer outro, ele tinha. Precisa de remédios, mas não tem dinheiro pra comprar, precisa de alimento, mas não tem dinheiro pra comprar, precisa pagar luz, água, mas não tem dinheiro pra pagar. Deus, uma vida inteira dedicada ao mundo, uma vida abandonada por ele.

Enquanto coisas fúteis são feitas com uma rapidez impressionante para agradar e engrandecer um momento de vida de uma minoria que tem acesso a muito, muitas pessoas estão morrendo todos os dias, sem dignidade, sem que seja lembrada pelo que fez, pelos caminhos que trilhou, sonhos estão sendo mortos sem nunca terem tido asas, sem nunca terem sido contados ou iniciados, chances nunca dadas. 

Talvez quem se foi sonhando, teria feito muito mais do que aquele que nunca sonhou por não ter necessidade disso e por isso, não fez o muito mais, do que aquele que viveu sonhando.

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